Vereadores de Cachoeira Paulista, SP são criticados após intimidar médico em horário de descanso

Na gravação divulgada pelos políticos, eles acordam o profissional que estava na sala de descanso, começam a gravar e o acusam de dormir no horário de trabalho. Santa Casa de Cachoeira Paulista emitiu uma nota esclarecendo que o médico fazia plantão e estava em intervalo previsto em lei.

Dois vereadores de Cachoeira Paulista (SP) estão sendo criticados nas redes sociais depois de compartilharem um vídeo em que aparecem invadindo a sala de descanso da Santa Casa para intimidar um médico. Na gravação, eles acordam o profissional, começam a gravar e o acusam de dormir no horário de trabalho (veja vídeo acima).

A reportagem o médico contou que dava plantão de 36 horas de trabalho seguidas, para manter o atendimento na falta de dois médicos que estão afastados por Covid-19.

Os vereadores que aparecem no vídeo são Felipe Piscina e Max Barros, ambos do DEM. Os dois foram até a Santa Casa na quarta-feira (24) para fiscalizar o atendimento. No vídeo, eles abrem a porta da sala de descanso onde o médico está dormindo e o acordam com acusações de recusa de atendimento.

Na imagem, com uma ficha na mão, o vereador acusa o médico de dormir no horário e local de trabalho enquanto pessoas aguardavam por atendimento. O vereador se exalta, grita e amassa a ficha de um paciente.

O vídeo foi postado na rede social do vereador Felipe Piscina que passou a ser criticado por moradores. A postagem tem cerca de 900 comentários. O médico Rodrigo Coragem conta que a unidade está funcionando com metade da equipe médica, apenas dois profissionais, pois outros dois estão afastados com Covid-19.

Ele estava em atendimento desde a noite de terça-feira (23), mais de 24h de trabalho quando foi tirar uma hora de descanso e foi filmado. A Santa Casa emitiu uma nota onde afirma que o profissional estava em intervalo, previsto em lei (leia mais abaixo).

O médico conta que, pouco antes do flagrante, havia passado 1h40 tentando reanimar um paciente de 44 anos que não resistiu e morreu com Covid-19. Em seguida, atendeu a família da vítima para comunicar a morte e decidiu descansar.

“Eu levantei correndo quando ouvi esmurrarem a porta porque achei que alguém estava morrendo. No meio de uma pandemia, sendo levados ao limite a gente ainda tem que ver cenas como essa. Aquelas pessoas não sabiam pelo que nós estávamos passando, vendo paciente morrer por falta de UTI. Fazer o que pode sem estrutura”, comentou Rodrigo.

O médico ainda questionou a suposta fiscalização alegada pelos vereadores ao invadirem a unidade.

“É uma inversão. Não temos um raio-x digital na Santa Casa, isso é culpa de quem? A culpa da situação que estamos vivendo não é do profissional, mas da classe política. Eu estou fazendo tudo que eu posso e estou sendo colocado no meu limite todos os dias e receber isso de volta é um absurdo”, disse.

Após a confusão, o médico ainda seguiu com os atendimentos e encerrou às 7h desta quinta-feira (25), com 36 horas de trabalho.

O que diz a Santa Casa

Em nota, a Santa Casa repudiou o comportamento dos vereadores e alegou que o médico fazia plantão de 12h e estava em seu horário de descanso, que é de uma hora. A unidade ainda disse que não aceita o comportamento vexatório e ameaçador.

“A Santa Casa repudia a atitude dos vereadores Felipe Piscina e Max Barros que deslancharam uma operação com objetivo único de constranger o médico em seu local de trabalho e no seu direito ao descanso. Em momento em que a atividade médica torna-se ainda mais fundamental, e inaceitável qualquer forma de desrespeito à categoria que está mais exposta aos riscos de contrair a Covid-19”, diz trecho da nota.

A unidade informou que vai adotar as medidas judiciais cabíveis. Até a publicação, ainda não havia sido feito boletim de ocorrência sobre o caso.

O que dizem os vereadores

O vereador Max Barros disse que foi ao local acompanhar outro vereador, após reclamações de demora no atendimento na Santa Casa. Ao chegarem, encontraram o médico dormindo e Max decidiu filmar a ação.

“Eu só gravei o vídeo e não deixei ele impedir que a gente flagrasse. Se um médico precisa dormir, primeiro tem que ter outro para atender a população. Se ele está sobrecarregado, precisa cobrar que a prefeitura tenha mais médicos”, comentou.

A reportagem, o vereador Felipe Piscina (DEM), que aparece na imagem, pediu desculpas pela atitude.

“Eu me equivoquei, mas na hora que eu cheguei porque as pessoas não me explicaram isso, que ele estava descansando e atendendo há tantas horas? Jamais eu quero fazer isso para prejudicar uma pessoa ou por politicagem. Eu vou me retratar com ele, não posso mudar o que fiz, mas eu reconheço que errei em como eu abordei ele”, disse Felipe.

Após as críticas, o vereador Felipe Piscina publicou na tarde desta quinta-feira um vídeo explicando sua versão da situação.

Em nota, a Câmara informou que “não compactua com atitudes desrespeitosas e que assim que o fato for encaminhado à Comissão de Ética e Disciplina dessa Casa de Leis serão estes apurados e tomadas as devidas providências cabíveis”.

A nota assinada pelo presidente Rodolpho Borges (Rede) ainda pede desculpas e ressalta ainda que o papel de vereador deve ser exercido “de maneira adequada e com respeito às pessoas, em especial, aos profissionais de saúde nesse momento difícil pelo qual passamos”.

Por Poliana Casemiro

Fonte: G1